Professores de todo o Brasil aprendem Física criativa

Dave Fish, do Perimeter Institute. Foto: IFTP/SAIFR

Clarice Cudischevitch

Cinquenta e quatro professores de Física de todo o Brasil, da rede pública e particular, se reúnem em São Paulo nos dias 29 e 30 de setembro para um treinamento inovador. O objetivo é que eles aprendam métodos criativos, por meio do uso de materiais e de atividades práticas, para ensinar tópicos de Física avançada a partir de conceitos básicos do Ensino Médio. O curso é promovido pelo Instituto Serrapilheira, Instituto Sul-Americano para Pesquisa Fundamental (ICTP-SAIFR) e Perimeter Institute, do Canadá, e acontece no Instituto de Física Teórica da Universidade Estadual Paulista (IFT-UNESP).

O treinamento, conduzido por Greg Dick e Dave Fish, da área de divulgação científica do Perimeter, e por Pedro Vieira, professor do ICTP-SAIFR, do Perimeter e do IFT, começou com um desafio bem-humorado. Dick mostrou um cilindro de dentro do qual saem cordas, que podem ser puxadas de vários lados de uma forma que aparenta não fazer muito sentido (veja no vídeo abaixo).

Ele pediu que os participantes tentassem explicar como é a disposição das cordas dentro do objeto. “Nós já apresentamos esse desafio para professores e alunos. Adivinhem quem se saiu melhor”, afirmou. “Não tenho medo de ousar.”

A resposta para o desafio não é uma só. Dick e Fish explicaram que diversos modelos são possíveis: as cordas podem ter disposições diferentes dentro do cilindro e, ainda assim, o resultado ser o mesmo. De acordo com Dick, o experimento é importante para as crianças aprenderem que ciência não é memorizar fatos. “É um processo de construção de modelos, descobertas. Se elas decoram e depois aprendem que aquilo não é bem verdade, vão desmerecer os professores.”

Ele continuou: “Tive uma aluna de 17 anos que saiu da aula muito brava com o experimento. Voltou depois com um modelo que ela mesma construiu usando um tubo de papel higiênico e barbante, que funcionava perfeitamente. Foi incrível”.

Outro experimento desafiou os professores a explorarem o conceito de mecânica quântica. Para isso, areia colorida foi colocada dentro um copo de plástico com dois cortes no fundo. Os participantes deveriam avaliar se a areia, ao passar pela fenda dupla e cair na mesma, se comportaria como ondas ou partículas. Observaram que, ao cair na mesma, a areia formava um padrão. “Isso acontece porque um grão de areia não pode ocupar o mesmo espaço de outro. As partículas têm energia”, explicou Dave Fish. O mesmo não acontece com as ondas.

Apesar de o treinamento ser voltado para professores de Física de Ensino Médio, também conta com a participação de quatro divulgadores de ciência que fizeram parte do Camp Serrapilheira, evento de divulgação científica realizado pelo Instituto Serrapilheira no início de setembro. Carlla dos Reis Martins é criadora do Projeto Cosmos, que busca levar a Astronomia a escolas públicas de Manaus.

“Nós tentamos nos limitar à Astronomia básica por achar que os alunos não vão entender, mas a verdade é que eles têm muito interesse – mesmo os mais novos – em assuntos como buracos negros”, comentou Martins. “Gostei que Greg e Dave falaram que não devemos ensinar aos estudantes só aquilo que tenha resposta. É importante apresentar também temas ainda sem resultados, porque eles podem buscá-los, algum dia.”

Além de Carlla dos Reis Martins, os outros divulgadores que também participaram do treinamento foram os físicos Zélia Ludwig (Para Meninas Negras na Ciência) e Alan Brito (UFRGS) e a química Graciele Oliveira (Projeto Bingo).