17/08/2026 02:15

Pesquisadores brasileiros identificam espécies-chave para a recuperação da floresta amazônica

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Estudo mostra que 15 a 25 espécies de árvores concentram mais da metade do carbono nas florestas secundárias da região; resultados podem orientar projetos de restauração

 

 

Um estudo publicado na revista científica internacional Global Change Biology identificou as espécies de árvores centrais para a recuperação da floresta amazônica após episódios de  desmatamento. A pesquisa foi liderada por Fernando Elias, pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi e apoiado pelo Instituto Serrapilheira, em colaboração com instituições brasileiras e internacionais. Os resultados podem orientar projetos de restauração e sequestro de carbono – processo que ajuda no combate ao aquecimento global ao capturar e retirar altos níveis de dióxido de carbono da atmosfera. Confira a íntegra do artigo em PDF aqui

Na Amazônia, de acordo com Elias, aproximadamente 90% do desmatamento é feito no modelo de corte e queima para a implantação de pastagens, causando perdas profundas no ciclo da água e na regulação da temperatura feita pelas florestas. “Ao remover a floresta, perde-se o serviço de lançar água para a atmosfera e contribuir para a redução da temperatura local”, explica. Após o desmatamento, ao longo dos anos surgem as florestas secundárias, também conhecidas como capoeiras, que se regeneram naturalmente nesses espaços e gradualmente recuperam esses serviços climáticos.

O estudo analisou 102 parcelas de florestas secundárias em quatro regiões da Amazônia, separadas por uma distância média de 600 quilômetros. Os pesquisadores descobriram que 15 a 25 espécies de vegetação, entre 3% e 6% do total, respondem por mais de 50% do carbono acumulado nessas áreas. O padrão foi o mesmo em todas as regiões e estágios de regeneração, sugerindo que a floresta se recupera por meio de um grupo pequeno e relativamente previsível de espécies.

Entre elas estão Embaúba (Cecropia palmata), Tatapiririca (Tapirira guianensis), Ingá-Vermelho (Inga alba) e Araticum-Bravo  (Annona exsucca), que, juntas, respondem por 16% a 27% da abundância total e do carbono armazenado. “A intenção é mostrar como essas espécies de árvores, ao longo do processo de recuperação da floresta secundária, contribuem para o clima regional”, detalha o pesquisador. Dados preliminares mostram que áreas florestadas podem ter temperaturas entre 2°C e 3°C mais baixas que ambientes desmatados.

Segundo Elias, as capoeiras ou florestas secundárias cobrem aproximadamente 148 mil km² da Amazônia, mas enfrentam uma ameaça crônica. Cerca de 57% delas sofrem novo desmatamento em até 10 anos de recuperação, e 80%, até 20 anos. Cada novo ciclo de destruição compromete os mecanismos de regeneração natural e reduz o potencial de recuperação da biodiversidade. “As capoeiras podem recuperar até 88% da riqueza de espécies (número total de espécies presentes na área) e 85% da composição florística, que corresponde à composição original da floresta, nos primeiros 40 anos”, explica. Nos primeiros 20 anos de recuperação, essas florestas acumulam 24% do carbono estocado nas florestas primárias, a uma taxa de 1,2% ao ano.

A pesquisa também teve o apoio do CNPq, Museu Goeldi, Centro Capoeira e Rede Amazônia Sustentável.

 

Em nova etapa, torres vão monitorar temperatura, umidade e dados da floresta 

Em meio ao estudo, os pesquisadores instalaram as primeiras torres de monitoramento climático em floresta secundária na Amazônia, o que representa um novo passo dentro do projeto. As duas estruturas estão localizadas na região de Capitão Poço, no nordeste do Pará. Uma tem 20 metros de altura e monitora uma capoeira de cerca de 35 anos em 56 hectares. A outra, com 40 metros, acompanha um fragmento de 500 hectares de floresta primária no mesmo município.

As torres foram equipadas com sensores microclimáticos em diferentes alturas para medir temperatura e umidade do ar, da superfície e do solo em tempo real. A estrutura maior conta com ao menos 10 sensores de alta precisão e precisa funcionar por, no mínimo, 12 meses seguidos, capturando dados tanto na estação seca quanto na chuvosa. O trabalho foca no processo de evapotranspiração, quando as árvores retiram água do solo e a lançam na atmosfera, atuando como “bombas bióticas”, que alimentam as nuvens e influenciam diretamente na manutenção das chuvas e na regulação da temperatura regional. 

Os dados das torres de monitoramento serão cruzados com imagens de satélite para calibrar modelos de sensoriamento remoto para toda a bacia amazônica. O objetivo é monitorar as variáveis climáticas e comparar a recuperação de serviços climáticos perdidos pelo desmatamento tanto nas florestas primárias quanto nas secundárias.

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