Editais contemplam cientistas em início de carreira e pós-docs negros e indígenas

Grantees das chamadas da apoio à ciência e ecólogos negros e indígenas no Encontros Serrapilheira, em Pipa, em 2024
O Instituto Serrapilheira anunciou, nesta quarta-feira (3), os 14 pesquisadores contemplados em dois editais que vão destinar R$ 8,2 milhões ao desenvolvimento de pesquisas científicas no Brasil. A 9ª chamada pública de apoio à ciência selecionou dez cientistas em início de carreira vinculados a instituições de ensino e pesquisa nas áreas de ciências naturais, matemática e ciência da computação. Outros quatro foram selecionados pela 4ª chamada de apoio a pós-docs negros e indígenas em ecologia, realizada em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb). Do total, o Serrapilheira oferece R$ 6 milhões e a Fapesb, R$ 2,2 milhões.
O objetivo dos dois editais é criar condições para que jovens cientistas desenvolvam pesquisas originais com autonomia, flexibilidade e abertura ao risco. Os pesquisadores estão vinculados a instituições localizadas em vários estados brasileiros, como Bahia, Amazonas, Distrito Federal, Paraná, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo.
“Os projetos selecionados trazem hipóteses ousadas e arriscadas”, afirma o diretor-presidente do Serrapilheira, Hugo Aguilaniu. “Os jovens cientistas receberão recursos flexíveis para atender às necessidades às vezes imprevisíveis da pesquisa de ponta, mas o apoio do Serrapilheira vai além da transferência de recursos. A partir de agora, eles integram uma comunidade que promove uma cultura de valorização à ciência feita de forma colaborativa, aberta, com equidade e diversidade.”
9ª chamada pública de apoio à ciência
Foram selecionados dez pesquisadores na 9ª chamada pública de apoio à ciência. A iniciativa é direcionada a cientistas em início de carreira que tenham vínculo permanente a uma instituição de pesquisa, com projetos nas áreas de ciências naturais (ciências da vida, física, geociências e química), matemática e ciência da computação.
Cada cientista receberá entre R$ 380 mil e R$ 450 mil para desenvolver suas pesquisas ao longo de cinco anos. Eles também poderão acessar recursos adicionais por meio do bônus da diversidade, destinado à formação e inclusão de pessoas de grupos sub-representados em suas equipes de pesquisa.
Os projetos aprovados são de alto risco, mas também com grandes possibilidades de impacto. Eles buscam responder a perguntas fundamentais da ciência, questionando o conhecimento atual, abrindo novas perspectivas de avanço e aprofundando a compreensão sobre fenômenos naturais. Entre os temas selecionados estão desde a evolução da comunicação vocal em tartarugas até o desenvolvimento de técnicas com feixes de luz para investigar amostras biológicas e nanomateriais magnéticos.
A pesquisadora Tamara Rodrigues, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), está entre os selecionados. Ela vai investigar por que alguns vírus podem causar sintomas neurológicos persistentes, enquanto outros não deixam sequelas. Já Israel de Jesus Sampaio Filho, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), vai pesquisar a “dendropausa”, uma espécie de menopausa das árvores, buscando entender como o estresse climático prolongado pode afetar a produção de hormônios em árvores gigantes da Amazônia.
4ª chamada de apoio a pós-docs negros e indígenas em ecologia
A chamada exclusiva para pós-docs negros e indígenas em ecologia selecionou quatro cientistas para desenvolver pesquisas na Bahia, em parceria com a Fapesb. A iniciativa busca ampliar a participação de grupos sub-representados na academia e contribuir para que esses pesquisadores alcancem posições formais como professores e pesquisadores em universidades e institutos de pesquisa.
Os aprovados receberão até R$ 525 mil para execução de seus projetos ao longo de três anos, além de uma bolsa mensal de R$ 5.200, oferecida pela Fapesb. Os estudos contemplados tratam de temas relacionados à conservação da biodiversidade, funcionamento dos ecossistemas, impactos ambientais e relações entre comunidades humanas e natureza. Os pesquisadores vão desenvolver novas linhas de pesquisa em grupos nos quais não tenham estudado ou atuado anteriormente, fortalecendo a circulação de pessoas e ideias entre instituições científicas.
Um dos selecionados foi o indígena potiguara Fabricio Claudino de Albuquerque, que vai desenvolver sua pesquisa na Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), na Bahia. Seu projeto busca entender como processos de coextinção (quando o desaparecimento de uma espécie causa impacto em outras) podem alterar sistemas socioecológicos e afetar benefícios que a natureza fornece às populações humanas. Para isso, ele vai mapear interações alimentares entre peixes e os usos desses recursos por comunidades costeiras.
Para Handerson Leite, diretor-geral da Fapesb, o resultado consolida um compromisso de longo prazo. “Anunciar os selecionados deste edital é dar um passo prático em direção à ciência que acreditamos: diversa e de excelência. Ao lado do Serrapilheira, vamos viabilizar estudos avançados que vão impactar diretamente a nossa sociedade. Fortalecer pesquisadores de grupos sub-representados é, acima de tudo, garantir que a ciência baiana e brasileira seja um reflexo real do nosso povo.”
Ciências da vida
Gabriel Jorgewich Cohen (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia)
Vai estudar padrões nos sons emitidos por tartarugas para entender se elas são capazes de aprender a emitir novas vocalizações.
Israel de Jesus Sampaio Filho (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia)
Vai medir os níveis de hormônios de estresse de folhas de árvores gigantes da Amazônia em diferentes estados de seca para entender se há uma mudança hormonal crônica associada à morte das plantas.
Mayara Neves (Universidade Federal do Paraná)
Vai investigar se viver em ambientes previsíveis ou altamente variáveis influencia a forma como novas características dos organismos evoluem e se diversificam ao longo do tempo.
Osiel Goncalves (Universidade Estadual do Centro Oeste)
Vai buscar entender como os microrganismos de crescimento lento e difíceis de cultivar em laboratório são tão abundantes na natureza.
Tamara Rodrigues (Universidade Federal de Santa Catarina)
Visa compreender os mecanismos que determinam a persistência ou a resolução da neuroinflamação após uma infecção viral.
Tamires de Souza Rodrigues (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
Vai estudar como os genes das plantas monocotiledôneas (como a setária ou o milho) registram a “memória” de eventos de estresse do passado e contribuem para a resiliência climática das plantas.
Física
Nara Rubiano da Silva (Universidade Federal de Santa Catarina)
Vai desenvolver novas técnicas que usam feixes de luz com diferentes direções de polarização — isto é, com a luz “vibrando” de formas variadas — para investigar amostras biológicas e nanomateriais magnéticos de modo mais rápido e eficiente.
Geociências
Alice Andrade (Universidade de Brasília)
Vai utilizar ferramentas computacionais e dados de campo para entender os padrões da “decoada”, fenômeno natural que reduz os níveis de oxigênio na água nos rios e nas planícies de inundação do Pantanal.
Matemática
João Pedro Gonçalves Ramos (Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada)
Vai buscar entender qual é o mínimo de informação necessária sobre uma onda para poder reconstruir toda a evolução dela ao longo do tempo.
Química
Luiz Possato (Universidade Estadual Paulista)
Vai estudar reações químicas em tempo real para entender se certos “defeitos” na estrutura dos materiais na verdade são um estado diferente do material que facilitam as reações.
Carine Santana Silva (Universidade Federal da Bahia)
Ecologia
Vai estudar a relação entre o solo de manguezais e a capacidade de retenção e degradação da poluição por petróleo nesses ecossistemas.
Fabricio Claudino de Albuquerque (Universidade Estadual de Santa Cruz)
Ecologia
Vai mapear interações alimentares entre peixes e seus usos em comunidades costeiras para testar como extinções em cadeia podem afetar os benefícios que a natureza oferece às pessoas.
José Pedro Viana (Universidade Estadual de Santa Cruz)
Ecologia
Vai estudar a relação entre a rápida expansão da mosca-da-fruta Zaprionus tuberculatus e os vírus e bactérias associados à espécie.
Sabrina Ferreira de Santana (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia)
Ecologia
Vai estudar as interações entre insetos polinizadores para investigar como mudanças no uso da terra e em paisagens agrícolas podem influenciar a evolução, o surgimento e a transmissão de vírus.
Alex Bateman – European Molecular Biology Laboratory (Reino Unido)
Angelina Kakooza Mwesige – Makerere University (Uganda)
Antonio Abate – Helmholtz Center Berlin (Alemanha)
Christopher Brett – Universidade de Coimbra (Portugal)
Daniel Mucida – Rockfeller University (EUA)
Eleonora Di Nezza – University of Tor Vergata (Itália)
Ekram Hossain – University of Manitoba (Canadá)
Gareth Law – University of Helsinki (Finlândia)
Guilherme Pimentel – Scuola Normale Superiore di Pisa (Itália)
Ivan Araújo – Max Planck Institute for Biological Cybernetics (Alemanha)
Jaime Huerta-Cepas – CSIC (Espanha)
Joshua Sanes – Harvard University (EUA)
Kacey Prentice – University of Toronto (Canadá)
Karen Hallberg – Balseiro Institute (Argentina)
Maria Colombo – EPFL Lausanne (Suíça)
Muthama Muasya – University of Cape Town (África do Sul)
Rahul Pandharipande – ETH Zurich (Suíça)
Rachid Guerraoui – École Polytechnique Fédérale de Lausanne (Suíça)
Roberto Weinberg – Monash University (Austrália)
Sally Archibald – University of the Witwatersrand (África do Sul)
Sandra Diaz – CONICET (Argentina)
Sebsebe Demissew – Addis Ababa University (Etiópia)
Victor Arroyo Rodriguez – National Autonomous University of Mexico (México)
Zhangjun Fei – Cornell University (EUA)
Confira abaixo a lista dos revisores da chamada de pós-docs negros e indígenas:
Bruno Soares – University of Regina (Canadá)
Elzamara Oliveira – Universidade Federal do Pará (PA)
Luisa Carvalheiro – Universidade Federal de Goiás (GO)
Paulo Guimarães – Universidade de São Paulo (SP)
Rosy Mary dos Santos Isaias – Universidade Federal de Minas Gerais (MG)
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