A matemática em uma xícara de chá

Em palestra no ICM 2018, Tadashi Tokieda transforma objetos cotidianos em brinquedos

Tadashi Tokieda rola saleiros com quantidades diferentes de grãos de arroz em minirrampa de madeira. Foto: Pablo Costa/ ICM 2018

Clarice Cudischevitch

Para o matemático japonês Tadashi Tokieda, é fácil transformar objetos banais, como uma xícara de chá, em brinquedos. Mais do que isso, é possível explicar matemática por meio deles. E foi o que ele fez na palestra pública de divulgação científica no estilo “mão na massa”, no Congresso Internacional de Matemáticos (ICM 2018). A palestra foi promovida pelo Instituto Serrapilheira e pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA).

Tokieda tem uma trajetória curiosa. Começou como pintor no Japão, depois foi filólogo clássico (profissional que estuda a linguagem em fontes históricas) na França e matemático na Inglaterra. Da Universidade Oxford (Reino Unido) seguiu para Princeton (EUA), Cambridge (Reino Unido) e Harvard (EUA) até se fixar em Stanford (EUA). Ativo na divulgação da matemática, ele participa do canal Numberphile (Youtube), que contabiliza mais de 10 milhões de visualizações.

O palestrante iniciou a apresentação indo direto ao ponto e batendo uma colher de metal em uma xícara de chá de porcelana, para analisar o som emitido. Mostrou que, ao mudar o ângulo em que toca um objeto no outro, o som também se altera, por conta das oscilações sonoras. Observou, ainda, que, se colocar pequenas bolas de madeira dentro da xícara e girá-la, a direção muda conforme a quantidade.

“Em maior quantidade, a rotação é transmitida. O giro fica difuso e impulsiona o movimento geral. Se continuamos a aumentar o número de bolas, o movimento fica completamente congelado”, explicou.

Foto: Pablo Costa/ ICM 2018

Uma lógica semelhante se aplicou quando Tokieda rolou saleiros que continham quantidades variadas de grãos de arroz sobre uma minirrampa de madeira.

Ele surpreendeu a plateia quando um dos recipientes não rolou pela rampa, nem mesmo sendo empurrado, apesar de estar mais vazio que outros que rolaram.

“Isso acontece porque os grãos têm um característico ângulo de repouso”, destacou.

Tokieda passeou, em seguida, por diversos objetos mostrando a matemática intrínseca a eles e prendendo a atenção do público ao exibir os resultados dos experimentos em telões.

“Tadashi estuda brinquedos matemáticos que encantam tanto crianças quanto adultos”, comentou o físico da Universidade Federal Fluminense (UFF) Marco Moriconi, que apresentou o palestrante. “Tem um fino senso de humor e olho especial para identificar surpresas em sistemas simples cotidianos, mas com uma matemática muito rica.”