“As rodovias são o ralo da biodiversidade”, diz ecóloga

Tamanduá-bandeira, uma das espécies ameaçadas de extinção e com índices significantes de atropelamentos, em registro feito na Serra da Canastra/MG. Foto: Creative Commons

Clarice Cudischevitch

Quinze animais são atropelados por segundo nas rodovias do Brasil – 475 milhões por ano. O número impressionante se soma, ainda, ao fato de que boa parte desses bichos já está em extinção, revelando nas estradas uma verdadeira ameaça às espécies do país. Em um episódio bônus do podcast 37 graus, a ecóloga Fernanda Abra conta como trabalha para reduzir esse problema.

“As rodovias são o ralo da biodiversidade”, ressalta a entrevistada. São lobos-guarás, onças-pardas, tamanduás-bandeiras, cachorros do mato e veados desaparecendo do mapa. Ela se deu conta desse fato quando trabalhava num escritório do Ibama e analisou dados de 2005 a 2014 das estradas concedidas no Estado de São Paulo. Ali, se surpreendeu com o número de mamíferos silvestres atropelados: mais de 38 mil.

Apaixonada por animais, Fernanda não poderia ignorar o problema. Na entrevista, ela conta que já chegou até mesmo a causar um congestionamento em uma estrada no Amazonas porque viu um ouriço no meio da pista. Desceu do taxi-lotação que a transportava e interrompeu o trânsito nos dois sentidos para conduzir o bicho para dentro da mata com o auxílio de um galho.

Hoje, Fernanda é doutoranda em Biologia e trabalha com os túneis para passagem de fauna acompanhados de cercas nas rodovias, a solução mais utilizada no Brasil para evitar os atropelamentos. Eles foram construídos, a princípio, para drenagem de água, mas alguns acabaram sendo aproveitados para esse fim.

O animal, ao se deparar com a cerca, é naturalmente direcionado para a passagem subterrânea, por onde pode cruzar para o outro lado da via em segurança. A combinação da cerca com o túnel pode reduzir em até 70% os atropelamentos.

“Um dos meus trabalhos é instalar câmeras nos túneis para ver se os animais estão passando, de fato. Vi bandos inteiros de capivara, às vezes com 17 indivíduos, veados, pacas, tatus. Isso me encheu de felicidade”, afirma a ecóloga. Ouça o episódio completo.

O 37 graus é um podcast em estilo de audiodocumentário que conta histórias reais com um pé na ciência. Em dezembro de 2018, ele e mais 13 projetos foram selecionados pelo edital do Serrapilheira para apoiar novas formas de divulgação científica. Os projetos foram contemplados com R$ 100 mil, cada um, e sua evolução será acompanhada de perto pelo instituto ao longo de 2019.