primeira edição da série “Encontros Serrapilheira” reúne 65 cientistas no Rio de Janeiro

Entre os dias 18 e 20 de abril, o Instituto Serrapilheira promoveu a primeira edição do “Encontros Serrapilheira”, reunindo no Museu do Meio Ambiente, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, os cientistas que tiveram propostas de pesquisa selecionadas na primeira chamada pública do Instituto para debater seus projetos, de forma colaborativa. Organizado pela equipe executiva do Serrapilheira, o evento contou com a presença de membros do Conselho Científico e do Conselho Administrativo do Instituto.

Durante a abertura do evento os pesquisadores fizeram apresentações de pôsteres com resumos de seus projetos, e receberam como incumbência um exercício de reflexão. A tarefa resultou em pequenos textos, bastante objetivos, escritos à mão ali mesmo, sobre o que acreditam ser necessário para desenvolver suas pesquisas, como equipamentos e pessoal especializado, e o que podem oferecer em troca.

Mais do que gerar interação, a atividade deu pistas do que viria nos dias seguintes, quando ficaram mais claras as possibilidades de colaboração entre os pesquisadores, de diferentes áreas.

O evento foi resultado de um trabalho intenso, iniciado com a prospecção de projetos, que resultou em 1955 propostas de 331 instituições, das quais 65 – nas áreas de ciências da vida, engenharias, química, ciências da terra, ciência da computação, física e matemática – foram selecionadas na primeira chamada pública para receber apoio do Instituto.

“A seleção dos projetos, entre setembro e dezembro de 2017, exigiu dedicação do Conselho Científico do Serrapilheira, que contou com o apoio de avaliadores externos para chegar aos projetos contemplados”, disse o diretor-presidente do Instituto, Hugo Aguilaniu.

Ele ressaltou que, embora as agências públicas sejam essenciais, a proposta do Serrapilheira é oferecer uma alternativa. “Não vamos trabalhar com a chamada ‘ciência do dia’, que busca apenas certezas, mas com a chamada ‘ciência da noite’, que considera as incertezas, para tentarmos fazer algo diferente, correndo mais riscos, sem, no entanto, abandonar os critérios de excelência na pesquisa”.

Conexão para novas ideias

Na manhã do dia 19, os cientistas selecionados se reuniram em 12 grupos para apresentações instantâneas. Em apenas 10 minutos, seus projetos foram expostos a partir dos temas forma, espaço, tempo, energia, identidade, matéria e informação, nos quais estão inseridas suas próprias pesquisas.

O exercício serviu para que eles pudessem saber o que cada um faz em suas unidades de pesquisa. Conhecendo um pouco mais sobre o trabalho de seus colegas, e com muitas perguntas em comum, ficaram claros a importância e o potencial de colaboração entre as áreas. “Com este tipo de  evento, queremos fomentar colaborações interdisciplinares, por isso oferecemos espaços de encontro que são raros em simpósios acadêmicos tradicionais”,  diz Cristina Caldas, diretora de pesquisa científica do Serrapilheira.

Cientistas que tiveram propostas de pesquisa selecionadas na primeira chamada pública do Instituto.

Na parte da tarde, os pesquisadores compuseram mesas em duas sessões. Na primeira, foram discutidos aspectos relacionados à “Diversidade na Ciência”, com seis mesas temáticas sobre maternidade na ciência, gênero, raça, diversidade regional, inclusão de deficientes físicos e diversidade socioeconômica. As discussões em grupo foram apresentadas em forma de resumo aos demais pesquisadores, em tópicos que passaram a fazer parte das discussões que se seguiram.

Os cientistas Adriana Alves (USP), Marco Antonio Zanata Alves (UFPR), Carlos Hotta (USP) e Natan Silva Pereira (UNEB) em sessão colaborativa durante o evento.

Ainda na parte da tarde, o tema da divulgação científica – um dos eixos de atuação do Serrapilheira –, foi discutido na sessão “Divulgação Científica e Open Science”, com a participação da pesquisadora Luisa Massarani, do Museu da Vida, da Fiocruz, que apresentou a palestra “Divulgação científica como responsabilidade social do cientista” e debateu com os cientistas diferentes aspectos da divulgação, com subsídios para as discussões seguintes. Na mesma sessão, foi apresentada a primeira chamada pública do instituto na área de divulgação científica, o Camp Serrapilheira. “Acreditamos que a boa divulgação de seu trabalho, e da ciência em geral, deve ser uma preocupação de todo cientista. Por isso, queremos estimular a participação dos cientistas apoiados pelo Serrapilheira em iniciativas de divulgação, assim como queremos aproximar divulgadores da nossa rede”, diz Natasha Felizi, diretora de divulgação científica do Instituto.

Divididos em seis mesas, eles debateram temas como o uso da internet e das redes para criar engajamento público sobre ciência, sobre como combater a desinformação e argumentos cientificamente não procedentes, como tornar os dados e a pesquisa científica mais acessíveis às comunidades científicas e leigas, como se relacionar com a mídia tradicional (TV, rádio e jornal), como comunicar melhor sua pesquisa e que ferramentas usar e ainda sobre quais seriam os principais desafios da divulgação científica.

As discussões geraram questionamentos e debates pertinentes sobre o papel da divulgação científica para as pesquisas, entre pesquisadores, equipe executiva e conselheiros.

Durante os três dias do encontro, os pesquisadores também foram desafiados a gravar vídeos com 1 minuto e meio de duração, falando sobre suas pesquisas para públicos distintos, formados por crianças, jovens e experts de outras áreas.

No terceiro e último dia do encontro, Márcia Barbosa, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), apresentou a palestra “Diversidade em Ciência: uma verdade inconveniente”, na qual descreveu o longo caminho das mulheres na ciência, e sua importância para as pesquisas e instituições que as abrigam.

A questão do gênero, aliás, esteve bastante presente no encontro, e ainda que os dados mostrem disparidades entre as diferentes áreas, eles apontam para uma crescente participação das mulheres em todas as etapas da pesquisa científica.

A sessão “Colaboração entre o Instituto Serrapilheira e os cientistas” fechou o evento, com uma roda de conversas sobre como o instituto pode ajudar os cientistas além do apoio financeiro.

Liberdade e excelência

Dois temas foram bastante citados durante o encontro, a liberdade para pesquisar e a excelência da pesquisa como resultado final.

Para o presidente do Conselho Científico do Serrapilheira, Edgard Dutra Zanotto, a liberdade acontece no sentido de que os recursos repassados aos cientistas não são “engessados” por alíneas. “Uma das vantagens desse tipo de apoio, que eu chamo de ´dream grants´, é que não há alíneas, o que permite ao pesquisador usar os recursos conforme suas necessidades”, explica, dizendo que isso inclui trazer pesquisadores de outros países, contratar pós-doutorandos, viajar para participar de congressos no exterior ou custear despesas para treinamentos.

Sobre o encontro, Zanotto acredita ser inédita uma reunião de uma agência de financiamento com equipes executiva e científica e todos os pesquisadores apoiados, durante três dias, em que todos se conhecem, trocam experiências, assistem às apresentações orais e dão sugestões.

Fatima Moreira, Stevens Rehen, Oswaldo Luiz Alves, Mayana Zatz, Luiz Davidovich e Edgar Dutra Zanotto, membros do Conselho Científico do Serrapilheira.

Esse aspecto também é destacado por Hugo Aguilaniu, para quem o encontro permitiu construir uma rede, uma comunidade, o que tem a ver, segundo ele, com o entusiasmo dos cientistas selecionados.

“A ideia era iniciar conversas sobre temas transversais das ciências, como inclusão de grupos sub-representados e divulgação científica”. Para ele, o impacto em divulgação e inserção de grupos sub-representados é maior quando feito pelos melhores cientistas, o que está em consonância com as melhores práticas da ciência. “Não queremos um impacto apenas incremental, mas mostrar o que é um cientista moderno, que se preocupa com divulgação e inclusão, e ainda assim atinge a excelência. Queremos quebrar paradigmas”.

Breves depoimentos

“O apoio do Serrapilheira está sendo fundamental, num momento em que a pesquisa no Brasil enfrenta dificuldades, inclusive com muitos projetos já aprovados seguirem sem recursos. Por isso, num momento como esse, de muitos nãos, esse sim foi uma injeção de ânimo”.
Giovannia Pereira, UFPE

“Esse apoio é um divisor de águas. A chancela do Serrapilheira poderá, inclusive, destravar outros pedidos de apoio, pois o projeto está entre os melhores, o que reforça o caráter de relevância da pesquisa. Já o encontro me fez perceber que é preciso sair da zona de conforto, ampliar a metodologia e arriscar mais”.
Adriana Alves, USP

“A discussão da diversidade é extremamente oportuna e tem que ser levada adiante. É assim que o Serrapilheira vai fazer a diferença”.
Guilherme Longo, UFRN

“A avaliação às cegas foi muito importante, para quebrar monopólios de pesquisa. É mais do que uma questão de apoio financeiro. É uma oportunidade de mostrar algo novo”.
Renata Libonatti, UFRJ

“A formação dessa rede é importante porque trocamos informações e criamos uma comunidade de pesquisa, que seguirá com a discussão em grupo”.
Gabriela Cybis, UFRGS