A arte da matemática

Em palestra no ICM 2018, Ingrid Daubechies fala sobre algoritmos e afrescos restaurados

Ingrid Daubechies em frente à reprodução de painéis do século 14 pintados por Francescuccio Ghissi. Foto: Pablo Costa/ ICM

Clarice Cudischevitch

Sempre que tem um problema, Ingrid Daubechies pensa em como a matemática pode ajudar. Acabou indo tão longe na aplicação dessa ciência que chegou às artes. Em palestra pública no Congresso Internacional de Matemáticos (ICM), promovida pelo Instituto Serrapilheira e pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), ela atraiu de estudantes a vencedores da Medalha Fields, interessados em ouvir sobre o trabalho de restauração de afrescos por meio do uso de algoritmos.

Daubechies é apaixonada pela matemática aplicada. “As pessoas da matemática pura dizem que a aplicação faz com que se perca a beleza da teoria, que ela se torna suja, bagunçada, mas eu nunca acreditei nisso. Sempre tentei construir algo preservando o que havia de bonito.” Não por acaso, ela é conhecida, hoje, como a criadora do protocolo jpeg 2000, um padrão de compressão de imagens de alta definição. Pode compactar até 90% do arquivo original sem perder a qualidade de imagem.

“Eu sabia que esse trabalho poderia ter aplicações e ser usada por profissionais”, conta. “Os engenheiros adoraram”. A contribuição de Daubechies, que é matemática e física, ao aprimoramento a análise de imagens foi além. Há dez anos, ela atua em diferentes projetos de restauração de obras de arte, utilizando a computação. Em um trabalho minucioso, ela explora superfícies, fragmentos e ondulações de afrescos, manipula raio x e luz infravermelha e devolve-lhes a “vida”, como diz.

Um dos trabalhos de Daubechies foi no rejuvenescimento de painéis do século 14 pintados por Francescuccio Ghissi, ao fundo da foto no início desse texto. Composta de nove partes, a obra, que retrata São João Evangelista, havia sido removida de sua igreja original na Itália e desmantelada há mais de 100 anos. Foi reunida pela primeira vez para exposição no North Carolina Museum of Art (EUA).

A palestrante foi a primeira e única mulher a presidir a União Matemática Internacional (IMU, na sigla em inglês), entre 2011 e 2014. Foi ela quem telefonou para Artur Avila, único brasileiro a ganhar a Medalha Fields, para comunicar sobre o prêmio.

Também foi a primeira mulher a se tornar professora titular do prestigiado Departamento de Matemática da Universidade de Princeton (EUA), onde lecionou entre 2004 e 2011 (desde então está na Universidade Duke). Conhecida internacionalmente, não por acaso foi “tietada”, ao final da apresentação, por Michael Atiyah, medalhista Fields de 1966.

Ingrid Daubechies, ao final da palestra, “tietada” pelo matemático Michael Atiyah, vencedor da Medalha Fields em 1966

Daubechies é fã de arte, mas afirma “ter um certo problema” com alguns tipos de arte moderna. “Acho que requerem um entendimento intelectual que eu não tenho e não sei apreciar. Entendo melhor de arte antiga”.

Tudo que aprendeu sobre o assunto, acrescenta, foi por meio de conversa com historiadores da arte. “Prefiro encontrar as pessoas e conversar a fundo para entender de fato o problema que elas têm. Falo para meus estudantes: se você quer trabalhar em colaboração com pessoas de fora da matemática, ache alguém disposto a investir tempo a seu lado.”