Ciência, religião e arte dialogam em debate no Rio

Hugo Aguilaniu, a mediadora Carla Branco, Marcelo Janot e Nilton Bonder. Foto: Divulgação/ LER – Salão Carioca do Livro

Clarice Cudischevitch

Ciência, cultura e religião foram os assuntos do debate entre o diretor-presidente do Instituto Serrapilheira, Hugo Aguilaniu, o rabino Nilton Bonder e o crítico de cinema Marcelo Janot, na noite desta quarta-feira (26). Eles se reuniram no Teatro Nelson Rodrigues, no Rio de Janeiro, para falar sobre o tema “Alma imoral, corpo imortal. A humanidade e o indivíduo segundo a ciência, a filosofia e a fé”, como parte do evento (Re) Ler.

Na introdução, Aguilaniu, biólogo geneticista, falou sobre sua área de pesquisa: o envelhecimento. “As pessoas o veem como um desgaste, em que o corpo vai ‘estragando’ com o tempo, mas a natureza mostra que não é bem assim”, destacou.

Ele deu o exemplo do salmão, que nasce no rio, desce para o mar e depois volta aonde nasceu para botar os ovos, morrendo cerca de três dias depois. No entanto, em anos de seca, o peixe pode levar meses a mais que o normal para subir o rio. O curioso é que, nesses casos, ele não envelhece e morre no meio do caminho: sobrevive em boas condições até desovar e, só depois, morre. “Então, parece existir um sinal que avisa ao salmão quando ele pode envelhecer e morrer.”

Aguilaniu questionou por que ciência e religião são apresentadas como incompatíveis. “Essa oposição é recente, tem cerca de 250 anos e agora está muito forte dos dois lados”, afirmou. “René Descartes, que era cientista e religioso, disse que devemos duvidar de tudo. O pensamento dedutivo, que é a base do método científico, é interrompido quando entra em campo o preconceito.”

Para o biólogo, a ciência procura a verdade, mas nem tudo que ela não consegue provar cientificamente é necessariamente falso. “A ciência é muito poderosa e consegue explorar um universo bastante amplo, mas que tem limites. Na minha percepção, a religião está em um lugar diferente.”

O rabino Nilton Bonder, autor do aclamado livro “A Alma Imoral”, adaptado para teatro e cinema, comentou que o ser humano procurou construir a moral como uma espécie de substituto aos instintos, de forma a estabelecer parâmetros do que se deve ou não fazer. “Quando essa moral se torna engessada, pequena, rompemos com ela para produzir uma nova. É o que vemos hoje nas questões de gênero, sexualidade. É um momento revolucionário.”

Bonder exemplificou, ao citar o texto bíblico que diz “crescei e multiplicai”: “A ideia de reproduzir, hoje, é muito questionável porque, se nos reproduzirmos com muita intensidade, estaremos nos colocando em risco muito mais que nos protegendo. É um cenário que demanda de todos uma imoralidade para produzir novos conceitos”.

O rabino ressaltou que o texto bíblico não deve ser interpretado em sua literalidade, pois sua linguagem é metafórica. “As pessoas estão misturando um cientificismo, fazendo interpretações racionais de um texto carregado de arte. Não há ali uma construção científica quando se diz que o mundo foi criado há 5.779 anos; é uma data que se refere à história cultural, humana. É quase vexaminoso querer impor a Deus a construção literal de um texto de mais de 3 mil anos como sendo a ciência máxima, absoluta.”

O crítico de cinema Marcelo Janot afirmou que, para a compreensão tanto da ciência quanto da religião, a arte tem um papel importante. Segundo o jornalista, ela permite desenvolver o pensamento, além de ser uma forma de comunicação e influenciar o momento político por meio de metáforas e alegorias. Depois do debate, Aguilaniu, Bonder e Janot tiveram a oportunidade de interagir com o público, respondendo perguntas sobre os temas abordados no debate.