Ciência sai dos laboratórios e invade bares e teatros

Carla Russo

Ciência na internet, nos bares, no palco, na zona rural e até nos sons. Cinco projetos de divulgação científica inovadores foram apresentados, nesta quarta-feira (5), no lounge do Museu do Amanhã, no segundo dia do Camp Serrapilheira. Cada divulgador teve 15 minutos para falar como começou o projeto, explicar a trajetória e apontar caminhos para o crescimento.

Levar cientistas para falar de suas pesquisas em um espaço democrático e descontraído é a ideia do Pint of Science (algo como Caneca de Ciência), que nasceu na Inglaterra, em 2013. A iniciativa desembarcou no interior de São Paulo, dois anos depois, com a jornalista apaixonada por ciência Denise Casatti, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC-USP). Denise propôs fazer um piloto em São Carlos, que acabou sendo a primeira cidade da América Latina a participar do Pint. O sucesso atraiu outros lugares para o projeto. Em 2016, sete municípios participaram e mais de 7 mil pessoas acompanharam os encontros do Pint of Science. A expansão continua. Este ano, 56 cidades aderiram, e 40 mil pessoas participaram dos eventos. Denise destaca que a força do projeto é justamente a rede criada. “O Pint não é a história de uma pessoa, é a história de todos os envolvidos nesta rede que está crescendo.”

Denise Casatti do Pint of Science Brasil

A ciência também é a protagonista nos palcos do teatro. “Não sou cientista, sou artista”, explicou logo a atriz Letícia Guimarães da Silva, do Museu da Vida, vestida com o figurino de uma peça. “Meu corpo é um instrumento de comunicação.” Comunicação eficiente. Através do teatro, o Museu da Vida leva temas difíceis para o grande público. Diante do crescimento do vírus HIV entre os jovens, o Museu montou uma peça sobre o tema e se inspirou na história de cordel “O rapaz da rabeca e a moça Rebeca” para falar de prevenção e tratamento em escolas públicas. A peça itinerante viajou por cidades do Sudeste e, em dois anos, foi assistida por 28 mil pessoas. Os atores foram preparados por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz para responder dúvidas do público sobre o HIV. Atualmente, uma peça sobre matemática está em cartaz no Museu da Vida.

Leticia Guimarães do Museu da Vida

Som e Imagem

Estímulos sonoros também podem ser ferramenta de aprendizado na ciência. Esta é a meta do Projeto Sonora, da produtora musical Luisa Puterman. De olhos fechados e fones de ouvido, as pessoas são convidadas a usar a imaginação, a criar narrativas e formular hipóteses. “Antes de sair do útero já estamos ouvindo”, diz Luisa. O projeto, de baixo custo e tecnologia simples, já foi levado para prisões, hospitais e escolas públicas. Os planos para o futuro incluem um roteiro sonoro do corpo humano.

Luisa Puterman do Projeto Sonora

Vinicius Camargo Penteado, do Science Vlogs Brasil, contou que a paixão pela ciência começou na infância e o fez escolher a biologia como carreira. Atento à internet, Vinicius criou um blog, que publicava textos próprios e replicava publicações de outras fontes. Em 2013, Penteado começou a fazer pequenos documentários sobre temas científicos para o You Tube. Convidado para participar do Science Blogs Brasil, selo que reúne blogs de ciência, Penteado ajudou a criar o Science Vlogs Brasil, versão em vídeo. O projeto seleciona canais relevantes de divulgação científica no YouTube e ajuda a difundir o conteúdo. Já são 37 canais, com mais de 5 milhões de inscritos e 290 milhões de visualizações. “Temos muito cuidado na seleção. Para fazer parte do Science Vlogs o canal passa por um longo processo até ser aprovado”, conta Vinicius.

Vinicius Penteado do Science Vlogs Brasil

O Silo – Arte e Latitude Rural leva arte, cultura, ciência e tecnologia para zonas rurais. Criadora do projeto e mestre em artes visuais, Cinthia Mendonça faz parcerias com instituições cientificas, como o Observatório de Aves da Mantiqueira, para estimular o cruzamento entre técnicas intuitivas e saberes científicos. Laboratórios de invenção, encontros temáticos, ações educativas e mutirões de agroecologia são algumas das atividades. “O meio rural é um ótimo lugar para divulgar a ciência com prática”, explica Cinthia.

Cinthia Mendonça do Silo – Arte e Latitude Rural

Os projetos estão entre os 50 selecionados para o Camp Serrapilheira. Na segunda fase, até 20 iniciativas serão escolhidas para receber até R$ 100 mil de financiamento. O resultado será divulgado em dezembro.