10/08/2022 06:26

Como a ciência sustentou a ideia de inferioridade biológica da mulher

  • Blog Ciência Fundamental

O sexismo no estudo da reprodução humana ao longo da história

Ilustração: Clarice Wenzel

Por Rossana Soletti

Entender como o ser humano se desenvolve no ventre materno é uma das questões que mais intrigou a humanidade. Se hoje, com muito conhecimento e tecnologia, ainda não conhecemos todos os processos do desenvolvimento gestacional, essa questão era extremamente difícil de ser respondida na antiguidade. A atuação da ciência eurocentrada, nas mãos de homens brancos ao longo dos séculos passados, foi fundamental para firmar o estereótipo da inferioridade biológica da mulher e sua participação na sociedade como produtora e criadora de filhos. 

Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), filósofo grego e estudioso de diversas áreas, dentre elas a embriologia, considerava as mulheres “homens defeituosos” cujo desenvolvimento no ventre materno havia sido encerrado precocemente. Aos fetos femininos faltaria o calor necessário para transformá-los em fetos masculinos. Quanto ao papel da mulher na reprodução, ele sustentava que, se no sangue menstrual estava a causa material para a formação do embrião, era no sêmen do homem que residia a força divina, animada e racional que daria origem à vida. A menstruação era um sêmen impuro, ao qual faltava o princípio da alma. 

Para Galeno (129-217), importante médico que viveu em Roma e cujos estudos prevaleceram nas concepções ocidentais por diversos séculos, a temperatura mais alta dos homens também explicaria sua superioridade biológica. O calor, deficiente nas mulheres, seria responsável pela deformação de seus órgãos reprodutores externos e internos. Os “testículos femininos” (os ovários), pequenos e imperfeitos, dariam origem a um sêmen frio, incapaz de gerar um animal.     

A ideia de inferioridade biológica da mulher também esteve presente durante os séculos 17 e 18, período intelectual fértil para a história natural. Com a construção dos primeiros microscópios, em 1677 o cientista holandês Antonie van Leeuwenhoek pôde observar os espermatozoides pela primeira vez. A movimentação deles serviu como prova de vida, presumindo a existência de uma estrutura complexa dotada de alma. Ganhava força a corrente do preformismo ou animalculismo, com a ideia de que os seres já estavam completamente formados e miniaturizados dentro dos gametas. O desenho de Nicolaas Hartsoeker, publicado em seu Essai de Dioptrique [Ensaio de dióptrica] em 1694, é a mais típica ilustração do preformismo, mostrando um ser humano curvado em posição fetal dentro da cabeça de um espermatozoide. 

Mesmo depois de décadas de estudos e da demonstração de que espermatozoide e óvulo eram necessários para formar um embrião, perdurou a ideia de que o óvulo seria uma espécie de “célula passiva” à espera da entrada do mais forte e apto dos espermatozoides. Na verdade, o processo de fecundação é muito mais complexo, tendo o óvulo um papel primordial na atração do espermatozoide e no controle de sua entrada. 

Leia o texto completo no blog Ciência Fundamental, na Folha de S.Paulo

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