Como cientistas podem se comunicar melhor? Confira algumas dicas

Jean-luc Doumont, do grupo belga Principae, ensina técnicas de boa apresentação aos grantees no 4º Encontros Serrapilheira. Foto: Bela Baderna

Clarice Cudischevitch

Cientistas não costumam exercitar técnicas em comunicação, e uma lacuna nessas habilidades pode dificultar a aceitação de um artigo por algum periódico, a compreensão da pesquisa pelos pares e até mesmo a candidatura a um edital. A quarta edição do Encontros Serrapilheira oferece um workshop para aperfeiçoar essas práticas a 30 grantees do instituto. O evento acontece de 8 a 11 de dezembro em Itatiba, no interior de São Paulo.

No treinamento ministrado por Jean-luc Doumont, do grupo belga Principae, os pesquisadores aprendem como estruturar bem seus papers e aperfeiçoar suas apresentações. O engenheiro explica que, como não costumam estudar tais técnicas, os cientistas aprendem por imitação a fazer palestras. “Apesar de procurarem dar seu melhor, eles acabam seguindo maus exemplos”, comenta. “Mas é um prazer trabalhar com pesquisadores porque, por mais que tenham essa lacuna, se você der a eles um método, eles podem ter um progresso espetacular.”

A pedido do Serrapiheira, Doumont listou algumas dicas importantes para quem quer fazer boas apresentações, independentemente da área de pesquisa. Confira a seguir:

1- A primeira dica é sobre estrutura. O item que mais falta em apresentações de cientistas é a motivação para o trabalho. As falas costumam ser autocentradas, sem uma conexão com a audiência. Eles contam o que fazem, mas não por que é necessário. Comece a palestra motivando o público com a relevância de seu trabalho.

2- Esta dica é sobre slides. No topo do template deve constar a mensagem principal, que é uma sentença inteira, de no máximo duas linhas, com uma declaração/afirmação. No restante do slide, a mensagem principal deve ser desenvolvida. “Ou seja: diga com as palavras, mostre com uma imagem”, afirma Doumont.

A matemática Luna Lomonaco durante workshop no Encontros Serrapilheira. Foto: Bela Baderna

3- Mais uma dica sobre slides. Doumont ressalta que, na maioria das apresentações, eles costumam trazer muita informação, principalmente porque temos medo de esquecer o que falar. “Os slides são para a audiência, não para o palestrante, que deve estar munido de anotações em forma de tópicos, com o mínimo de texto necessário para se lembrar do que falar.”

4- Os slides devem ser, de certo modo, independentes, capazes de se sustentarem sozinhos, de forma que uma pessoa que é surda possa captar o ponto principal. O mesmo vale para a fala: uma pessoa cega deve ser capaz de compreender a informação. “Essa é mais difícil, por isso, ensaie a apresentação sem os slides.”

5- A quinta dica é sobre credibilidade. Isso está relacionado a não mostrar nervosismo. Por mais que você esteja inseguro/a, por fora deve parecer confiante. “Isso significa não deixar que seu corpo faça nada sem sua permissão. Você pode se mover se tiver razão para isso, mas não por estar nervoso/a.”

6- A dica é: desapegue-se da ideia de que “qualquer coisa é melhor do que nada”. Um slide feito às pressas, no estilo “copia-e-cola” de relatórios ou papers, na verdade é pior do que nada e prejudica sua apresentação. “Não seja obcecado com slides. A humanidade fez ótimas apresentações durante muitos anos sem eles. Se não tiver tempo, não faça slides. E se orgulhe disso.”

7- Visualize-se fazendo uma boa apresentação, pois, ao se imaginar falhando, o cérebro “age” de acordo. “Por isso estereótipos são tão ruins – as pessoas ouvem e começam a se comportar conforme o que imaginam ser verdadeiro.”