“Extinção das abelhas coloca em risco nossa segurança alimentar”, diz pesquisadora

Abelha nativa sem ferrão Partamona cupira, grande polinizadora de plantas silvestres e alimentícias. Foto: Antonio Aguiar 

Fernanda Antunes Carvalho | Artigo 

Dia 3 de outubro é o Dia Nacional da Abelha, animal de extrema importância para a manutenção dos ecossistemas terrestres e para a sobrevivência humana.  Em toda a região tropical as áreas naturais são dominadas por plantas com flores e cerca de 90% destas plantas dependem das abelhas para se reproduzirem (formar frutos e sementes). Além do mel e das flores, as abelhas são responsáveis também pela polinização de cerca de 65% dos alimentos consumidos pela população mundial. No entanto, este serviço prestado pelas abelhas encontra-se ameaçado, pois estes animais são extremamente vulneráveis ao uso excessivo de agrotóxicos, destruição de habitats naturais e mudanças climáticas. Os impactos econômicos na produção de alimentos já estão sendo observados em diversos países e a extinção em massa das abelhas coloca em risco a maioria dos ecossistemas terrestre e também nossa segurança alimentar.

Estima-se que no Brasil existam cerca de mil espécies de abelhas, das quais Apis mellifera, a abelha com ferrão presente no dia a dia das cidades, é a mais conhecida. No entanto, estas abelhas eram inexistentes nas Américas até a chegada dos colonizadores. As abelhas nativas sem ferrão são conhecidas pelo mel saboroso, nutritivo e rico em propriedades medicinais, mas são ainda mais importantes como polinizadoras, pois diversas plantas silvestres e alimentícias, como maracujá, tomate e café, dependem de um tipo de polinização mais especializado. Estudos mostram que, independentemente da abundância de Apis mellifera em uma área de agricultura, as visitas realizadas por espécies de abelhas nativas aumentaram significativamente a produção de frutos.

As colônias das abelhas sem ferrão podem apresentar de algumas dezenas até mais de 100 mil indivíduos dependendo da espécie. Sua importância se reflete no papel significativo que desempenham na alimentação, mitos, rituais, crenças, medicina e até no comércio de vários povos do mundo. Atualmente no Brasil existem algumas associações de meliponicultores que comercializam o mel e ainda participam de programas educacionais para maior conscientização da população sobre a importância das abelhas nativas. A divulgação e a criação racional dessas abelhas pode ser uma peça-chave à crescente degradação ambiental e está diretamente relacionada à melhoria da qualidade de vida, tanto no campo, quanto nas cidades. 

O projeto financiado pelo Serrapilheira é um trabalho multidisciplinar envolvendo diferentes áreas da biologia, como ecologia, botânica, zoologia, genética e bioinformática, e também associações locais de meliponicultores a agricultores do Cerrado. Vamos utilizar técnicas modernas de sequenciamento de DNA para melhorar nossa compreensão sobre as interações entre as abelhas sem ferrão e as plantas com flores em uma área de cerrado no Brasil Central e como essas interações afetam nossa segurança alimentar. Algumas das questões a serem respondidas são “Como a degradação ambiental afeta as interações planta-abelhas no Cerrado?”; “Qual o impacto das abelhas nativas na produção agrícola do Cerrado?”; e “Quais espécies de plantas nativas poderiam ser utilizadas para melhorar criação racional das abelhas sem ferrão?”

* Fernanda Antunes Carvalho é doutora em Ciências Naturais pelo programa de Ecologia, Evolução e Sistemática da Universidade Ludwig-Maximilians-Universität em Munique, Alemanha, e grantee do Serrapilheira. Seu projeto busca entender a interação planta-polinizador no Cerrado com DNA-metabarcoding.