No Camp, divulgadores são desafiados a levar ciência a crianças

Clarice Cudischevitch

Com muitas atividades do tipo “mão na massa”, os três dias de workshop com a engenheira aeroespacial Tara Chklovski, criadora da plataforma Curiosity Machine, foram instigantes para os divulgadores de ciência participantes do Camp Serrapilheira. O evento, realizado no Museu do Amanhã de 4 a 7 de setembro, teve o primeiro dia de palestras abertas ao público e os demais dias fechados para apresentações e treinamentos com os selecionados.

A Curiosity Machine é voltada para crianças, adolescentes e seus pais resolverem desafios de tecnologia. Faz parte de um projeto mais amplo – a Iridescent, organização sem fins lucrativos dos EUA criada por Tara em 2006. Tem o objetivo de capacitar jovens, principalmente meninas, e suas famílias a se tornarem inovadoras e líderes por meio de programas de ciência e engenharia.

No workshop, Tara incitou os divulgadores a questionarem se os projetos teriam, de fato, uma comunicação efetiva para crianças. Para isso, lançou mão de diversas atividades. Uma delas foi uma charada de ciência: os participantes tinham que comunicar conceitos científicos, como “RNA” e “ciclo”, sem usar palavras, apenas mímica. Os termos eram sorteados, e o resultado divertiu os divulgadores.

Participantes do workshop comunicam conceitos científicos por meio de mímica

“Comunicar ciência ao público requer muita disciplina”, afirmou Tara. As pessoas acham que as ferramentas usadas para explicar conceitos a alguém que não é da sua área serviriam também para explicar a crianças, mas não é bem assim.”

Os participantes debateram como contar uma boa história de forma eficaz a crianças. Tara explicou que para que sejam impactadas por um vídeo, por exemplo, é preciso que elas respeitem a pessoa que aparece na tela. “Falar como criança não é bom porque a chance de parecer uma é muito pequena. Além disso, se abordar os desafios da ciência, a criança ficará assustada. É importante mostrar a vulnerabilidade ali presente, mas também as estratégias para superá-la.”

Rusty Nye, diretor de desenvolvimento de currículo na Iridescent, ministrou parte do workshop e lançou um exercício aos participantes a partir de um dos desafios da Curiosity Machine. A ideia era que, inspirados em carros autônomos que têm sensores para não sofrerem colisões, os divulgadores, divididos em grupos, criassem seus próprios circuitos. Para isso, usaram materiais baratos e acessíveis, como pilhas e palitos de sorvete.

O resultado foi um sucesso. Um dos grupos criou um circuito que emite um sinal sonoro quando entra em contato com algum objeto. Foi pensado para servir de sensor para mergulhadores serem avisados quando vão bater em corais. A ideia foi do ecólogo marinho Guilherme Longo, que estuda a saúde desses animais e tem um projeto de ciência-cidadã, em que toda a sociedade monitora suas condições ao postar fotos tiradas no mar.

Guilherme Longo explica o circuito que emite sinal sonoro, pensado para mergulhadores não baterem em corais

“Pôr a mão na massa e executar as coisas faz com que a gente crie outras habilidades, e falta muito disso no Brasil”, comentou o físico Pedro Loos, criador do canal de Youtube Ciência Todo Dia “Uma coisa é desenhar um circuito na aula de física no Ensino Médio, outra é montar, de fato, um circuito e ver que o fio condutor não está funcionando como o esperado, se dar conta de que erramos e que teremos que fazer de novo.”

Como produto final do workshop, Tara desafiou os participantes a gravarem vídeos contando boas histórias que envolvessem seus projetos, em linguagem acessível para crianças. O engenheiro Lucas Fonseca, diretor da iniciativa de divulgação da ciência aeroespacial Missão Garatéa, gravou com Pedro Loos uma espécie de documentário usando o espaço como elemento motivador para crianças se interessarem por carreiras científicas. “Precisamos da geração seguinte para resolver problemas que ainda não conseguimos solucionar.”

A bióloga Natália Oliveira, que é perita criminal e membro do coletivo de dança Vogue 4 Recife, sentiu-se desafiada pela proposta do workshop. “Criar um roteiro para crianças é um jeito de contar história com o qual não estou acostumada. Não é fácil sair de um grau de complexidade e simplificar por meio de uma linguagem mais acessível.” Em seu vídeo, ela explica como um detetive pode achar sangue no local de um crime e, assim, encontrar um suspeito.

Os vídeos produzidos pelos participantes do workshop da Curiosity Machine serão editados pelo Serrapilheira e divulgados posteriormente.