No interior da Terra, as respostas sobre o passado

Clarice Cudischevitch

Se o cientista não vai ao interior da Terra, o interior da Terra vai ao cientista. Essa é a solução encontrada pelo pesquisador Tiago Jalowitzki, da Universidade de Brasília (UnB), para lidar com um desafio lançado aos geólogos: como estudar as partes inalcançáveis do planeta?

Grantee do Instituto Serrapilheira, Jalowitzki busca compreender o processo de formação dos continentes a partir da análise de fragmentos oriundos do manto, a segunda camada da Terra, que está entre a crosta e o núcleo. Suas profundidades variam de 30 km a 2.900 km, então ir até lá não é uma opção. Esses “pedaços do planeta”, explica o geoquímico, são trazidos à superfície terrestre pela atividade de vulcões. “Estas amostras representam uma parte do planeta inatingível para o homem”, diz.

O interesse por esta área de pesquisa surgiu a partir de uma vontade de compreender o passado que vem desde a adolescência de Jalowitzki. Ele explica que o desafio de buscar respostas sobre a história do planeta é o que impulsiona a descoberta científica. “Eu quero entender como a Terra era há um bilhão de anos”, comenta.

Tiago Jalowitzki

Mais precisamente, a decisão de pesquisar o manto terrestre veio por volta de 2003, ainda no primeiro ano da graduação em Geologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Um dia, o professor apresentou à turma uma amostra de xenólito mantélico – nome dado a esses fragmentos. A ocorrência destas rochas na superfície está restrita às erupções vulcânicas porque é quando a energia envolvida é suficiente para arrancar pedaços sólidos do manto durante a ascensão do magma. “Devido aos desafios envolvidos, imediatamente surgiu a motivação para pesquisar sobre o tema”, diz o grantee.

No laboratório, Jalowitzki estuda a composição mineralógica e química dessas rochas e minerais oriundos do manto terrestre, de profundidades geralmente superiores a 40 km. “Com base na química destas amostras, é possível determinar as suas idades, discutir as suas origens e os processos relacionados à evolução dos seus ambientes de formação ao longo do tempo geológico.”

A pesquisa é desenvolvida a partir de três regiões geológicas brasileiras onde foram coletados fragmentos do manto superior: a ilha vulcânica de Fernando de Noronha, em Pernambuco, a intrusão kimberlítica Carolina, em Rondônia, e a intrusão kimberlítica Canastra-1, em Minas Gerais. “Queremos esclarecer se essas regiões registram a contribuição de anomalias térmicas, possivelmente associadas à fragmentação de supercontinentes e à abertura do Oceano Atlântico Sul.”

Professor de Geoquímica na UnB, Jalowitzki comemora o fato de trabalhar com o que gosta – ensino e pesquisa – e ressalta como as perguntas fundamentais da sua área de pesquisa o instigam a buscar explicações. “O caminho até a ciência está baseado nos questionamentos que movem novas descobertas. Atribuir uma resposta a uma pergunta, especialmente quando ela exige empenho, é simplesmente fantástico.”