Pesquisadores brasileiros farão treinamento em liderança científica

Martin Bloxham e Peter Redstone, da Barefoot Thinking Company. Foto: divulgação

Clarice Cudischevitch

Capacitar cientistas a usarem ferramentas de gestão é o desafio do segundo encontro de grantees do Serrapilheira. Sessenta e três pesquisadores apoiados pelo instituto passarão pelo treinamento em liderança científica da organização britânica Barefoot Thinking Company. No workshop exclusivo, realizado pela primeira vez no Brasil, os cientistas aprenderão técnicas de pensamento estratégico e criativo, de desenvolvimento de projetos em equipe, entre outros. O curso acontece nos dias 10, 11, 13 e 14 de novembro, no Rio de Janeiro.

Desde 2009, a Barefoot Thinking Company promove treinamentos voltados para cientistas em parceria com instituições como a Stanford University (EUA) e Toronto University (Canadá). Em 2013, deu início ao curso Challenge of Science Leadership (CSL) – “Desafio da Liderança Científica”, em português. Desde então, mais de 1.000 pesquisadores de cerca de 100 instituições na América do Norte, Reino Unido e Europa já passaram pelo programa.

Os 63 pesquisadores se dividirão em dois grupos – um fará o curso nos dias 10 e 11 de novembro e o outro, nos dias 13 e 14. O treinamento se baseará em áreas-chave – entre elas, pensamento criativo, como influenciar pessoas e como transformar ideias em ações. “O aprendizado é ativo, com exercícios do tipo ‘mão na massa’”, explica Martin Bloxham, um dos idealizadores do Barefoot Thinking Company.

Em uma das atividades previstas, os participantes farão coaching um com o outro: um deles será o treinador, o outro receberá o treinamento e um terceiro observará o processo. O exercício não é só uma simulação. “Eles farão, na prática, o que deve ser feito, e não apenas dizer o que fazer”, diz Bloxham.

Durante o curso, os participantes utilizarão como base seus próprios desafios, ideias e oportunidades. “Eles sairão de lá não apenas com um treinamento, mas também com formas de resolver os problemas que têm na realidade”, comenta Bloxham. “Construirão um plano de ação para colocar em prática tudo que aprenderam.”

O britânico destaca, ainda, que a maioria dos cientistas acha difícil exercer o papel de liderança. “Os brasileiros têm desafios específicos, mas, em todo o mundo, os pesquisadores não são treinados para serem líderes, e sim para fazerem o que amam, que é ciência.”

Ele próprio oriundo do meio acadêmico, Bloxham conhece o ambiente. Doutor em Química, foi consultor da Organização das Nações Unidas (ONU) por 15 anos. Atuava como especialista de problemas ambientais em sistemas aquáticos em regiões como a Bacia Del Plata, na América do Sul, e o Golfo do México, nas Américas do Norte e Central. “Passei anos em países em desenvolvimento e entendo os desafios políticos, culturais. Tenho muito interesse em economias de transição.”

Na idealização do Barefoot Thinking, a parte administrativa ficou sob responsabilidade de Peter Redstone, consultor de gestão e negócios. “Nos conhecemos em 2009 carregando esculturas para uma exposição, porque nossas esposas são escultoras”, relembra Bloxham. “Para nós, esse não é só um trabalho. Fazemos porque amamos dar à comunidade acadêmica algo que ela não tem.”

“Os cientistas assumem a posição de líderes e precisam exercer atividades para as quais não foram treinados, como gerir recursos, pessoas, projetos”, afirma a diretora de Pesquisa Científica do Serrapilheira, Cristina Caldas. “Decidimos oferecer esse treinamento não para que eles sejam super-heróis que vão fazer tudo, mas para que tenham um panorama geral do laboratório e possam liderá-lo sem necessariamente ter que assumir essas funções por conta própria. Queremos aliviá-los para fazer ciência.”