Pesquisadores brasileiros fazem registro inédito de galáxias do Hemisfério Sul

Galáxia registrada pelo levantamento CANGA. Imagem: Karín Menéndez-Delmestre, Observatório do Valongo

Clarice Cudischevitch

Astrônomos brasileiros farão um mapeamento inédito de galáxias do Hemisfério Sul. O Censo das Galáxias Austrais Próximas (CANGA, na sigla em inglês) foi inaugurado em agosto e, nos próximos anos, deve produzir o mais completo registro já feito dos sistemas estelares desta metade do globo. O projeto é coordenado pela pesquisadora Karín Menéndez-Delmestre, apoiada pelo Instituto Serrapilheira.

O CANGA pretende obter as imagens mais profundas já vistas de galáxias próximas, a partir de registros feitos pelo telescópio SOAR, ao sul do deserto do Atacama, no Chile. “Vamos fazer um levantamento de aproximadamente 1.500 galáxias do Hemisfério Sul que estão muito próximas da nossa galáxia – a até 120 milhões de anos-luz”, explica Menéndez-Delmestre, que é pesquisadora do Observatório do Valongo, unidade acadêmica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Em um experimento piloto na noite de 10 de agosto, a equipe mapeou quatro galáxias – uma delas a da foto no início desta matéria. “A ideia é combinar imagens no óptico e no infravermelho, usando telescópios e satélites, para estudar o histórico de formação estelar em cada pixel de cada uma dessas galáxias, para entender como se formaram e como evoluíram desde o Big Bang”, destaca Thiago Gonçalves, que também é pesquisador do Observatório do Valongo e integrante do CANGA.

Já existem registros similares que cobrem unicamente o Hemisfério Norte. Um dos mais famosos é o levantamento digital que teve início há 18 anos pelo telescópio SLOAN, no Novo México (EUA). É uma iniciativa internacional, usada como referência pelo CANGA. O projeto brasileiro, no entanto, terá um alcance 15 vezes mais profundo. “Nossa sensibilidade será maior”, diz Menéndez-Delmestre. “O espelho do SOAR tem 4,1 metros de diâmetro, quase o dobro do SLOAN.”

Outra diferença é o tempo de dedicação. O SLOAN abrange o céu como um todo, não se dirigindo diretamente aos sistemas estelares, como o CANGA fará. “Vamos ficar estacionados em cada galáxia”, afirma a astrônoma. A escolha das galáxias é feita a partir das informações de um outro mapeamento, feito há cinco anos com o telescópio espacial Spitzer, em imagens infravermelho que apontam a distribuição de massa estelar.

O Spitzer mapeou 2.300 galáxias próximas da Via Láctea, sem, todavia, diferenciar os Hemisférios. “Por isso, estamos correndo atrás do levantamento mais profundo feito especificamente do Hemisfério Sul”, diz Menéndez-Delmestre.

Combinando as imagens do Spitzer com as ópticas feitas pelo SOAR, o CANGA vai investigar o histórico de formação estelar a partir do mapeamento de microrregiões das galáxias. A ideia não é dizer há quanto tempo cada galáxia se formou, mas há quanto tempo determinado pixel em determinada galáxia se formou. “Pesquisamos os processos internos que levaram ao que vemos hoje”, ressalta Menéndez-Delmestre. “É como se, em vez de estudar o corpo humano, observássemos cada célula do organismo para fazer um estudo dirigido.”

Para utilizar o SOAR, no entanto, a disputa é grande. O Brasil tem direito ao uso do telescópio 100 dias por ano, que devem ser distribuídos a todos os grupos de pesquisa interessados e com projetos aprovados. “Agora, vamos submeter uma nova proposta demonstrando que conseguimos executar a ideia e pedindo mais tempo,” explica Menéndez-Delmestre.