Reversão dos polos magnéticos é imprevisível, destaca pesquisadora

Aurora boreal, causada por partículas carregadas do Sol que interagem com o campo magnético da Terra. Foto: Creative Commons

Clarice Cudischevitch

O polo magnético da Terra – ponto que a bússola reconhece como Norte – está se deslocando pelo Ártico numa velocidade maior do que a esperada, como mostrou uma reportagem do New York Times traduzida pela Folha de São Paulo. Mas quais seriam as implicações desta mudança de localização? Segundo a geofísica grantee do Serrapilheira Katia Pinheiro, imprevisíveis. No entanto, não há motivo para alarde.

Pesquisadora do Observatório Nacional, Katia explica que o campo magnético da Terra varia no tempo e no espaço, e a previsão de suas condições no futuro não é uma tarefa trivial. “Essa imprevisibilidade se deve à dinâmica caótica do fluido existente no núcleo externo, que gera o campo magnético da Terra. Entretanto, há um consenso geral entre os pesquisadores de que é possível prever o campo em até cinco anos.”

A cientista destaca que essa previsão é simplesmente uma extrapolação linear, atualizada a cada cinco anos, como é o caso do modelo “World Magnetic Model” (WMM), representação matemática baseada em dados do campo magnético da Terra. O problema é que a atualização de 2015 não foi suficiente, os cientistas aceleraram o processo e mudaram o modelo agora em 2019, como explica a reportagem. “A matéria mostra que nem sempre esta aproximação linear é adequada, como no caso desta rápida variação do polo norte magnético”, explica Katia.

Há um outro fenômeno que impõe uma grande barreira para estas previsões lineares: os chamados jerks geomagnéticos, a área de estudo de Katia Pinheiro. “Os jerks são as variações mais rápidas e imprevisíveis que ocorrem no núcleo terrestre”, explica a grantee do Serrapilheira, que pesquisa sobre a origem ainda desconhecida destes fenômenos. “Se compreendermos os mecanismos que produzem os jerks no núcleo, contribuiremos para uma melhora significativa na previsão do campo geomagnético”.

Em sua pesquisa, ela calcula a interação entre o fluido do núcleo com o campo magnético, que gera a chamada variação secular medida em observatórios e satélites. “No Brasil temos dois observatórios magnéticos produzindo dados de alta qualidade: Vassouras, no Rio de Janeiro, e Tatuoca, no Pará”. Estes observatórios contribuem para diversas pesquisas científicas no mundo, incluindo modelos globais como o WMM. Saiba mais.

Ou seja: o deslocamento do polo magnético que vem sendo observado faz parte da variação secular do fluido que existe no núcleo externo, sempre em movimento. Rico em ferro, esse fluido tem uma condutividade elétrica alta, produzindo corrente elétrica e, assim, gerando o campo magnético, que serve como um escudo protetor da Terra. Ainda assim, não se pode dizer que essa rápida variação no polo norte magnético indica um processo de reversão dos polos.

“O campo magnético da Terra e a atmosfera nos protegem da radiação solar”, conta a geofísica. “Durante o processo de transição de polaridade, o campo magnético fica muito fraco e, por isso, perdemos parte dessa proteção.” Mas o que aconteceria se perdêssemos nosso “campo magnético protetor”? “O que se sabe atualmente é que as reversões do campo no passado não estão relacionadas às extinções. Quais seriam os efeitos para os seres vivos ainda é uma questão bastante polêmica”.

De qualquer forma, essa diminuição seria muito lenta. “Não é necessário um alarde. É como Peter Olson [geofísico da Universidade Johns Hopkins] falou no final da reportagem: temos outras coisas com as quais nos preocuparmos”, encerra Katia.