Agência Bori quer mostrar à sociedade que o Brasil produz ciência

Sabine Righetti e Ana Paula Morales, da Agência Bori. Foto: Leo Eloy/ Estúdio Garagem

Clarice Cudischevitch

O Brasil publicou 70 mil artigos científicos em 2018, mas a maior parte dessa produção não chega ao conhecimento do sociedade. É para lidar com este desafio que está sendo criada a Bori, projeto apoiado pelo Camp Serrapilheira. Com previsão de lançamento em agosto, a agência vai divulgar de forma sistemática o trabalho de pesquisadores brasileiros com um objetivo principal: mostrar à sociedade que o país também produz ciência.

Para orientar o trabalho, a equipe da Bori quer falar com cientistas de todo o país e de todas as áreas do conhecimento sobre o fluxo da produção e da disseminação científica. Para isso, desenvolveu um questionário online, que pode ser respondido até o dia 25 de maio. Outro questionário, este voltado para entender as necessidades específicas dos jornalistas, também está disponível até 15 de maio.

A inspiração para o projeto vem da EurekAlert!, plataforma dos Estados Unidos popular entre jornalistas do mundo todo, que disponibiliza gratuitamente não apenas artigos em vias de publicação, mas textos de apoio em vários idiomas, vídeos, infográficos e o contato direto dos pesquisadores.

A Bori foi idealizada pela jornalista Sabine Righetti quando ainda trabalhava como repórter de ciência na Folha de São Paulo, em 2010. “Vi que era muito difícil cobrir ciência nacional. O Brasil era o 15º maior produtor de ciência no mundo e eu não conseguia descobrir o que os pesquisadores brasileiros estavam fazendo”, conta. “Ia a congressos e universidades para tentar achar os cientistas, mas não tinha um retrato do que estavam pesquisando. Em paralelo, era muito fácil saber o que cientistas estrangeiros produziam.”

Sabine relata, ainda, que ficava muito restrita à cidade e ao estado de São Paulo e acabava sabendo pouco sobre a pesquisa conduzida no Norte e Nordeste. “A consequência disso é que as pessoas começam a perceber a ciência nacional de maneira equivocada, porque se o que está sempre na imprensa é a ciência estrangeira, parece que a ciência nacional não é significativa e não tem impacto na vida de ninguém.”

O projeto, que é tocado junto com a biomédica especializada em jornalismo científico Ana Paula Morales, começou a sair do papel em 2014. O nome, Bori, é uma homenagem à primeira presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Carolina Bori. Após muitas reuniões com empresas e agências de fomento, Sabine conseguiu inicialmente um financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para desenvolvimento tecnológico. “Os recursos flexíveis do Serrapilheira eram o que faltavam para produzirmos conteúdo.”

Ao ser selecionada pelo primeiro edital do Camp Serrapilheira, de apoio a projetos de divulgação científica, a Agência Bori foi contemplada com R$ 100 mil. “Com esses recursos, encomendamos um levantamento de quais são os principais periódicos científicos internacionais nos quais os brasileiros mais publicam em 298 áreas do conhecimento, para fazermos uma parceria e termos os papers com antecedência.”

A ideia da Bori é divulgar os trabalhos científicos junto à imprensa e, ao mesmo tempo, ajudar os cientistas a desenvolverem habilidades básicas para conversar com os repórteres e explicar, da melhor maneira, a sua pesquisa. Instituições, grupos de pesquisa e faculdades terão direito a quotas a partir do serviço contratado – por exemplo, uma universidade pode assinar a plataforma e ter direito a uma, cinco ou dez divulgações por mês.

A expectativa é que, com o tempo, a plataforma se torne um repositório para as 2.300 instituições de pesquisa. Sabine explica: “Uma instituição como a Unifesp, por exemplo, pode ter direito a cinco divulgações, mas publica 600 artigos por mês. Ela poderia fazer o upload dos 600 artigos, mas nós transformaremos o conteúdo em uma comunicação para a imprensa cinco vezes”.

A Agência Bori é um dos 14 projetos contemplados pela primeira chamada pública do Camp Serrapilheira, em 2018. Estão abertas, até 7 de junho, as inscrições para a edição de 2019. Serão selecionadas 35 iniciativas de divulgação científica para participar de um evento com workshops e debates, no Rio de Janeiro, e, em seguida, concorrer a um apoio de até R$ 100 mil. Confira o edital em https://serrapilheira.org/chamada-publica-camp-2019/.