“As melhores descobertas são as que geram mais perguntas”, diz ecóloga

Ludmila Rattis e Sidarta Ribeiro, em debate no Camp Serrapilheira mediado por Fernanda Diamant, da Revista 451, ao centro. Foto: Larissa Kreili

Clarice Cudischevitch

Tudo no mestrado da ecóloga espacial Ludmila Rattis deu errado. Ela supunha que, por conta do desmatamento no estado de São Paulo, as vespas envolvidas na polinização de figueiras teriam dificuldade em encontrar essas árvores. Descobriu por outra pesquisa, porém, que esse problema não existia porque o inseto consegue viajar até 65 km em um dia levado pelo vento. No doutorado, tentou corrigir os erros, mas seu paper foi rejeitado incontáveis vezes. Conseguiu, enfim, aperfeiçoá-lo e publicá-lo na revista Perspectives in Ecology. Acabou vencendo o Prêmio Marcio Ayres para jovens pesquisadores.

Com esse relato, Rattis contou sua experiência com os erros, as dúvidas e o desconhecimento e mostrou a importância deles para o avanço de sua pesquisa. Ela participou de um debate com o neurocientista Sidarta Ribeiro no domingo, 8, que encerrou o Camp Serrapilheira e marcou o lançamento do livro Ignorância – como ela impulsiona a ciência, de Stuart Firestein. A obra foi publicada por uma parceria entre a Companhia das Letras e o Serrapilheira.

“As melhores descobertas são as que geram um número ainda maior de perguntas e produzem mais ignorância”, comentou a ecóloga. O livro de Firestein defende, justamente, que a ciência é movida não pelo que se sabe, mas pelo desconhecido. “Na escola, aprendemos que é bom quem responde mais. Você não ganha pontos por formular perguntas. Da mesma forma, o pesquisador tem vergonha se a discussão no seu artigo científico gera mais perguntas do que respostas. Só que as respostas têm limite; a ignorância, não.”

Lançamento oficial do livro Ignorância – como ela impulsiona a ciência no Camp Serrapilheira. Foto: Larissa Kreili

A ecóloga acrescentou que o livro a fez pensar em outro tipo de ignorância. Quando começou na pesquisa, ela não sabia estatística nem inglês, então ler um artigo era uma tarefa insuportável. “Firestein fala que fazer ciência é como procurar um gato preto no quarto escuro. O problema é quando você nunca viu um gato na sua vida. Eu percebi que só ia conseguir depois que encarasse a minha ignorância de frente.” Ela deu um conselho aos divulgadores presentes no Camp: “Pessoas que não são cientistas e lidam com dados científicos, não desistam. É realmente difícil.”

Ludmila Rattis pesquisa a relação entre florestas, clima e produtividade agrícola no Brasil e observou que, quanto maior a preservação ambiental, maior é a produtividade das lavouras. A situação, no entanto, é complexa. “Perguntei a uma produtora do interior da Bahia por que desmatar. Ela explicou: ‘imagina que você dependa da sua saúde física para trabalhar e, de repente, seu corpo fica coberto por verrugas que coçam, ardem e impedem seu trabalho. Existe um remédio que melhora as verrugas, mas ataca seu fígado. Você toma para poder voltar a trabalhar e se sustentar’. Essa é a lógica do uso do agroquímicos na fazenda. O mundo não é maniqueísta.”

No estudo do sono, um mundo desconhecido

A ignorância também teve um papel essencial na trajetória de Sidarta Ribeiro, neurocientista que pesquisa sono, memória e aprendizagem. “Quando fiz meu primeiro experimento nessa área, já havia um artigo que dizia que ele dava errado, mas eu não tinha lido porque ainda não existia internet direito. Eu fiz o experimento e, de fato, deu errado, mas depois descobri o jeito de fazer dar certo. Se eu tivesse lido o artigo, não ia testá-lo.”

Para Ribeiro, não existe uma divisão clara entre o conhecido e o desconhecido. “Muitas vezes o cientista testa uma ideia que não sabe de onde veio. Considero que há uma esfera que corresponde ao que se sabe; a superfície dessa esfera são as perguntas, ou seja, o que você sabe que não sabe; e o que está fora é o que você nem sabe que não sabe. À medida que se sabe mais, mais perguntas surgem e a esfera vai crescendo.”

Assim como Ludmila Rattis, Sidarta Ribeiro também teve uma experiência acadêmica inusitada. Ele contou que, quando chegou no inverno dos EUA para fazer doutorado, não entendia o que as pessoas falavam e não conhecia ninguém, então começou a ter muito sono. Dormia nos seminários, nas aulas, no laboratório – até 16 horas por dia.

“Pensei que estava queimando meu filme e iam acabar me mandando embora”, relatou. “Aí veio a primavera e tive um clique: passei a entender tudo, fiz amigos, os experimentos começaram a dar certo. Fiquei intrigado. O sono não estava me sabotando, mas me adaptando.” Ele resolveu pesquisar para que servia dormir e sonhar e percebeu que se sabia muito pouco sobre o assunto. Decidiu, então estudar essa área pelo viés da Neurociência.

Durante o debate, também foi exibido um vídeo gravado por Stuart Firestein para o Camp Serrapilheira. Ele comenta que, apesar de os fatos serem relevantes para a ciência, o que realmente importa é o que se faz com tanto conhecimento. “Tentamos fazer novas perguntas, mais sofisticadas e bonitas.” Confira o vídeo.

Quer saber mais sobre o livro Ignorância – como ela impulsiona a ciência? Confira a resenha: A ciência e a incerteza.

O Camp Serrapilheira é um festival que aborda a importância da qualidade narrativa e de formas experimentais para a divulgação científica, reunindo diversas atividades abertas ao público. A segunda edição aconteceu de 5 a 8 de setembro, na Casa Firjan e no Estação NET Rio, no Rio de Janeiro. Saiba mais.