Descoberta de lagoa em Marte pode contribuir para identificação de vida no planeta

Astrobiólogo Douglas Galante procura microrganismos que vivem em ambientes terrestres semelhantes aos marcianos

Imagem: Creative Commons

Clarice Cudischevitch

Estudo da revista Science que identificou um lago com água líquida em Marte pode ser uma peça-chave na pesquisa do astrobiólogo brasileiro Douglas Galante. Com apoio do Serrapilheira, ele investiga a possibilidade de vida no planeta a partir da observação de ambientes na Terra com condições semelhantes às marcianas.

Pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, em Campinas/SP, Galante coleta microrganismos que vivem em regiões extremas, com ambientes análogos a Marte. Alguns exemplos são a região ferrífera de Minas Gerais, os desertos áridos do Atacama e a gelidez da Antártica.

“A ideia é usar vias terrestres que sejam parecidas em algum nível com o ambiente marciano, identificar e caracterizar os organismos extremófilos que vivem lá e desenhar experimentos para detectá-los em Marte”, explica.

Há algumas décadas, diversos estudos já vêm descrevendo a presença de água em diferentes condições no planeta vizinho. “Antes, achava-se que Marte era um deserto seco e gelado, depois descobriram água congelada em seu subsolo e, em 2016, encontraram água salobra escorrendo pelas encostas nas montanhas de forma intermitente, congelada no inverno e derretida no verão.” Agora, com a identificação do lago subglacial, pela primeira vez observou-se a presença de um grande volume de água no planeta, que permanece líquida o ano todo.

“Isso aumenta muito a esperança de se encontrar seres vivos ativos no planeta”, destaca Galante. Provavelmente, a água encontrada, que até então só foi medida remotamente, também é salobra e, acredita o cientista, mais rica que a dos oceanos. Ele estuda um ambiente semelhante nas lagoas de Araruama, no litoral do estado do Rio de Janeiro, que são ricas em sal do tipo cloreto de sódio, usado na cozinha. “Se encontrarmos microrganismos resistentes a essas concentrações de sal nessa região, isso revelará uma possibilidade de vida em Marte.”

Vale ressaltar que cada tipo de sal tem uma toxicidade diferente. O cloreto de sódio, por exemplo, não é tão tóxico para seres vivos. Em Marte, no entanto, já foi identificada a presença de um sal chamado perclorato, extremamente tóxico. “Por isso, achava-se que não haveria vida alguma lá”, conta o astrobiólogo. “Mas há pesquisas estudando regiões salinas com perclorato e encontrando microrganismos extremófilos resistentes a esse sal. Então, esperamos que eles também possam existir em ambiente marciano.”

Confira o episódio do programa Conversa com Bial, da TV Globo, em que Douglas Galante comenta a recente descoberta sobre a presença da lagoa subglacial em Marte.

Veja também reportagem do jornal O Globo sobre o assunto.