Para boas histórias sobre ciência, rigor das informações é essencial

Brooke Borel e Greg Boustead em debate mediado por Tai Nalon, do Aos Fatos. Foto: Larissa Kreili

Clarice Cudischevitch

Ciência precisa gerar reflexão, mas também fazer sentir. É com base nesse princípio que Greg Boustead procura construir narrativas envolventes e significativas para o público pelo Science Sandbox, programa da Simons Foundation que busca levar a ciência a pessoas inicialmente não engajadas com a área. Ele falou sobre o tema em uma palestra no Camp Serrapilheira no sábado, 7, na Casa Firjan, Rio de Janeiro.

“O que fazemos é pegar uma pesquisa acadêmica e atribuir emoção a ela por meio do storytelling”, conta o diretor da Science Sandbox. Boustead, que tem uma formação em Neurociência e acabou indo parar na produção audiovisual, acredita não apenas na interseção entre ciência e cultura, mas que ciência é, de fato, cultura. “Estamos focados em conquistar as pessoas que ainda não se descobriram parte da ciência; que não se sentem convidados à festa.”

Para isso, o programa cria narrativas que despertam curiosidade. Um exemplo é a websérie Pondlife, recém-lançada em parceria com o American Museum of Natural History de Nova York, que revela a vida selvagem invisível que habita a cidade. Tudo começou com a microbiologista Sally Warring, que criou um perfil no Instagram para mostrar que, onde todos veem uma poça de água suja, por exemplo, ela vê beleza. Saiba mais no vídeo abaixo.

Para Boustead, um dos segredos para uma narrativa atraente é a confiança na audiência. “Você não precisa mostrar tudo, dar uma explicação exaustiva. Às vezes, deixar alguns gaps e mistérios é algo bom.” Ele também considera importante retratar os cientistas de forma autêntica, como seres humanos, e lembra que “dados são bonitos” e devem ser usados.

Narrativas e checagem de fatos

O Camp Serrapilheira contou, ainda, com uma palestra de Brooke Borel, autora do The Chicago Guide to Fact-Checking. A jornalista defendeu que boas narrativas são importantes para comunicar ciência, mas perdem o valor se as informações não são precisas. Em debate mediado pela diretora da agência Aos Fatos, Tai Nalon, Borel e Greg Boustead conversaram sobre o desafio de se conciliar os dois, de forma a atingir novos públicos de forma significativa.

“Há histórias que são baseadas em fatos precisos, mas acabam se destruindo em busca de uma narrativa mais atraente”, destacou Borel. “O jornalista tem compromisso com os fatos e com prover explicações para o mundo. Sem a precisão da informação, ninguém vai se engajar.”

Borel acrescentou que as notícias falsas surgem, ainda que sem intenção, quando se tenta tornar a narrativa mais importante que os fatos. No dia anterior, a jornalista ministrou um workshop sobre checagem de fatos como forma de garantir uma comunicação mais acurada a 36 divulgadores de ciência selecionados por uma chamada pública do Camp. Saiba mais na entrevista com Brooke Borel.

O Camp Serrapilheira é um festival que aborda a importância da qualidade narrativa e de formas experimentais para a divulgação científica, reunindo diversas atividades abertas ao público. A segunda edição acontece de 5 a 8 de setembro, na Casa Firjan e no Estação NET Rio, no Rio de Janeiro. Saiba mais.