Por que ainda temos poucas mulheres entre os grantees do Serrapilheira?

Pesquisadores participantes do 2º Encontros Serrapilheira, em 2018. Foto: Diego Padilha

Clarice Cudischevitch

As mulheres são 57% dos estudantes de graduação, 55% dos bolsistas de iniciação científica e apenas 36% entre os que recebem bolsas de produtividade em pesquisa do CNPq (aquelas destinadas a doutores com uma trajetória acadêmica sólida). Os dados mostram os obstáculos enfrentados por pesquisadoras para alcançar o topo da carreira – não por acaso, no mundo elas são apenas 30% dos cientistas.

Por isso, o Serrapilheira encoraja especialmente a candidatura de mulheres à 3ª Chamada Pública de apoio à pesquisa, que está com inscrições abertas até o dia 18 de dezembro. O último edital do instituto voltado a pesquisadores refletiu a realidade da ciência brasileira: 56,6% dos inscritos eram homens, 42,6% eram mulheres e 0,8% não quiseram informar ou marcaram a opção “outros”.

Na seleção, a questão se revelou ainda mais complexa: entre os contemplados, apenas 29% eram do gênero feminino, o que despertou a indagação: haveria algum tipo de viés na avaliação das propostas, ainda que o anonimato dos candidatos seja garantido durante o processo? Assim, a 2ª Chamada Pública de apoio à pesquisa foi submetida a um estudo conduzido durante o No-Budget Science Hack Week, workshop intensivo de projetos que buscam resolver problemas da ciência a um custo baixo, realizado em julho, no Rio de Janeiro.

O grupo responsável pelo estudo sintetizou os dados relativos à 2ª Chamada, analisou as notas atribuídas tanto aos projetos quanto aos currículos dos candidatos, por gênero, e concluiu que não houve diferença no desempenho entre homens e mulheres durante a avaliação.

Fizeram, então, uma análise por área e constataram que, nas ciências mais “duras”, há bem menos pesquisadoras submetendo propostas. Em ciência da computação, por exemplo, foram apenas quatro mulheres entre 52 candidatos (7,7%); em física, foram nove em 51 (18%). Assim, a seleção acabou reproduzindo o efeito de gênero encontrado nas áreas. Apenas nas ciências da vida essa tendência não se observou, pois 49% das propostas inscritas eram de mulheres (e 56% dos contemplados foram do gênero feminino).

Este é um fenômeno estatístico bem conhecido, chamado Paradoxo de Simpson: quando se analisa vários grupos separadamente, eles seguem uma tendência, mas, quando observados em conjunto, a tendência se perde. A pesquisa concluiu, assim, que não há viés de gênero nas Chamadas Públicas, mas que, por outro lado, para que haja uma seleção mais equilibrada entre os gêneros dos candidatos, precisamos de mais mulheres em áreas como matemática, física e ciência da computação submetendo propostas.

O estudo, que pode ser conferido aqui, foi conduzido pelas pesquisadoras Drª. Aline Melina Vaz; Ana Elisa Ribeiro Orsi (ambas da USP); Drª. Janaína Dutra Silvestre Mendes (Instituto Nacional do Câncer – INCA-MS); Karina Lobo Hajdu e Raiane Ferreira (ambas da UFRJ), que participaram do No-Budget Science Hack Week.

Aproveite para conhecer o nosso Guia de boas práticas de diversidade na ciência, elaborado por um comitê de especialistas na questão.