08/12/2020 08:41

Retrato da diversidade na pós-graduação brasileira

  • Encontros Serrapilheira

Em webinar do 5º Encontros Serrapilheira, Anna Venturini mostrou dados da desigualdade nos programas de pós-graduação no país

As pessoas negras são 56% da população brasileira, mas apenas 18% dos titulados na pós-graduação stricto sensu (mestrado, doutorado e mestrado profissional). Embora em 2019, pela primeira vez, pretos e pardos tenham se tornado maioria no ensino superior brasileiro (50,3%), nos programas de mestrado e doutorado essa representatividade ainda é baixa, o que impacta a diversidade – e a qualidade – da ciência.

A pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) Anna Venturini falou sobre o assunto em webinar do 5º Encontros Serrapilheira na quinta-feira, 3. Ela apresentou dados de seu estudo sobre ações afirmativas na pós-graduação e os desafios da expansão de uma política de inclusão.

Uma pesquisa de 2016 conduzida pela doutora em Educação Amelia Artes, da Fundação Carlos Chagas, com base no Censo Demográfico do IBGE, mostrou que as pessoas negras correspondem a 15,2% dos doutores titulados e 19,3% dos mestres. Essa distribuição não é homogênea entre as áreas. A presença de pretos e pardos, assim como de mulheres, é ainda menor nas ciências exatas, em comparação com ciências humanas, linguística, letras e artes.

“O sistema brasileiro de pós-graduação é marcado por desigualdades de gênero, regionais, étnico-raciais e socioeconômicas”, afirmou Venturini. A predominância de pessoas brancas no mestrado e doutorado implica menos pontos de vista diversos no meio acadêmico e, portanto, um universo menos rico de pesquisas. Esse assunto foi aprofundado em outro webinar pela professora da USP Marcia Lima, que explicou por que a diversidade é importante para a ciência.

Há diversas formas de mudar esse cenário, e uma delas são as ações afirmativas. Atualmente, 35,4% dos programas de pós-graduação acadêmicos (mestrado e doutorado) de universidades públicas do país adotam algum tipo de ação afirmativa. Até 2016, os exemplos eram esporádicos, mas depois de uma portaria normativa do Ministério da Educação (Portaria n. 13/2016), o número cresceu exponencialmente. A maior parte dos programas (63,9%) adotou a modalidade de cota (reserva de vagas).

As áreas com maior número de programas de pós-graduação com ações afirmativas são as ciências humanas (43,5%) e ciências sociais aplicadas (33%), enquanto as engenharias têm a menor proporção (20,3%). Nessa última área, nenhum programa adotou a medida por iniciativa própria, mas pela obrigatoriedade trazida pelas universidades ou leis estaduais.

“A predominância das humanidades tem relação com seus próprios objetos de pesquisa, com o fato de essas áreas estarem mais próximas das questões de desigualdade e identificarem mais facilmente as barreiras enfrentadas pelos grupos vulneráveis”, explicou a pesquisadora. “Vi muita resistência nas exatas – argumentos de que, se adotarem as cotas, elas vão acabar com a meritocracia. Mas, como disse Marcia Lima, meritrocracia não existe em uma sociedade desigual.”

Assista ao webinar completo aqui

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