Primeiro dia do Camp debate financiamento e criatividade na divulgação

Palestrantes do dia público do evento conversaram sob mediação da física Katemari Rosa

Tara Chklovski, Katemari Rosa e Greg Dick. Foto: Filipe Costa/ Agência Rastro

Clarice Cudischevitch

Após as primeiras apresentações do dia público do Camp Serrapilheira, foi a vez do debate entre os palestrantes. A física Katemari Rosa, professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), mediou a discussão entre Tara Chklovski, da plataforma Curiosity Machine/ Iridescent, e Greg Dick, do instituto de física teórica Perimeter.

O modelo de financiamento das duas iniciativas foi o tema principal da conversa, levantado por Katemari. Tara Chklovski explicou que, até alguns anos atrás, seu orçamento era nulo. “Eu não tinha salário; meu marido me sustentava. Hoje, eu o sustento”, comentou, arrancando risos da plateia lotada no auditório do Museu do Amanhã. Atualmente, a maior parte do financiamento da plataforma Curiosity Machine e da organização Iridescent, dos EUA, vem de empresas de tecnologia.

O instituto canadense Perimeter, por sua vez, conta com um orçamento de 200 milhões de dólares. Os recursos são híbridos, provenientes tanto do governo quanto da iniciativa privada, em forma de doação. “É preciso encontrar os parceiros certos, que realmente se importem”, destacou Greg Dick.

Katemari também perguntou aos palestrantes qual é a estratégia para atrair professores para os respectivos projetos. Tara explicou que, geralmente, a Iridescent é procurada por professores que querem saber sobre maneiras de envolver as escolas de forma mais efetiva no processo de aprendizado. “Os pais são os maiores direcionadores do interesse das crianças nas disciplinas. Por isso, são nosso alvo principal.”

Já o Perimeter tem como foco principal professores de física. “Oferecemos oportunidades para que eles se engajem, com recursos inovadores de ensino do 6º ano ao college.” Greg Dick ressaltou que, para atraí-los, é preciso que o material oferecido seja de alta qualidade. “Se não funciona bem na sala de aula, não será usado. Para alcançar professores, temos que atingir dos mais duros e tradicionais aos mais flexíveis, passando confiança a eles que, por sua vez, passarão aos estudantes.”

Os palestrantes falaram, ainda, sobre a relação entre ciência e criatividade, concordando que um não impede o outro – pelo contrário, se complementam. “Eu pinto, muitos cientistas são músicos, artistas, não vejo contraste nisso. Nós tendemos a enquadrar tudo, mas a vida não é assim”, disse Tara. “A imaginação, a criação, fazer perguntas que levam a mais perguntas, tudo isso é parte do processo experimental”, acrescentou Dick.

Os convidados também passaram mensagens aos divulgadores de ciência brasileiros selecionados para participar do Camp Serrapilheira. “Vocês têm que sonhar e trabalhar. O mundo não é mais definido pelas fronteiras do seu país. Procurar um financiamento que esteja de acordo com sua visão é uma peça-chave, e não é necessário ir nas fontes de recursos tradicionais para isso”, disse Tara. Já Greg aconselhou-os a manterem o foco no que querem fazer. “Há muita gente que vai querer tirar vocês de seus caminhos.”

Camp Serrapilheira

Lançado em abril, o programa incluiu edital para selecionar iniciativas brasileiras de divulgação científica a serem potencialmente patrocinadas pelo Instituto em 2019. Na primeira fase do Camp, 50 candidatos escolhidos apresentarão seus projetos e participarão de workshops com os representantes da Curiosity Machine, do Perimeter Institute, do Micro e Science Vs, de 5 a 7 de setembro, em evento fechado no Museu do Amanhã. Em seguida, até 20 dos candidatos serão selecionados para receber até R$ 100 mil de financiamento.