Projeto que mede reprodutibilidade da ciência recebe R$ 1 milhão do Serrapilheira

Clarice Cudischevitch

A Iniciativa Brasileira de Reprodutibilidade começará suas atividades em 2019 com um financiamento de R$ 1 milhão do Serrapilheira.  O investimento no projeto inédito, que vai medir o quão reprodutível é a pesquisa biomédica brasileira, foi destaque na Folha de S.Paulo. Trata-se do primeiro aporte de recursos mais robusto concedido pelo instituto.

Testar se um experimento utilizado em um estudo pode ser replicado por outros laboratórios é essencial para garantir a qualidade e confiabilidade da pesquisa científica, mas a área ainda apresenta uma lacuna no mundo todo. Formando uma rede nacional que vai replicar experimentos publicados em artigos na área biomédica, a Iniciativa Brasileira de Reprodutibilidade vai tentar suprir essa demanda no país.

O projeto, coordenado pelo médico e neurocientista da UFRJ Olavo Amaral, foi lançado em 2018 e recebeu inscrições de 71 laboratórios de 18 estados . No ano passado, a Iniciativa já contou com um apoio de R$ 145.200 do Serrapilheira para seu planejamento. E agora, com o aporte de R$ 1 milhão, vai ser possível replicar de 50 a 100 experimentos, de modo que cada um deles será reproduzido por pelo menos três laboratórios distintos. Se o resultado original for verificado nas replicações, considera-se que ele é reprodutível.

“É um investimento estratégico não apenas porque vai gerar o primeiro índice nacional de reprodutibilidade, mas também porque mobiliza um grupo de pessoas interessadas em um tema importante para tornar a ciência mais confiável e com mais impacto, permitindo conexões entre elas”, destaca Cristina Caldas, diretora de Pesquisa Científica do Serrapilheira. “Esperamos que outras agências de fomento também destinem uma parte de seus recursos, mesmo que pequena, para estudos como esse.”

A equipe de Amaral, que conta com os pesquisadores Kleber Neves, Clarissa Carneiro e Ana Paula Sampaio, está definindo quais laboratórios, entre os 71 inscritos, vão participar. Para replicar os experimentos, eles utilizarão quatro técnicas comuns na pesquisa biomédica, como a Western blot, que detecta e mede a quantidade de determinada proteína em uma amostra com o auxílio de anticorpos, e o labirinto em cruz elevado, teste comportamental em roedores. A ideia é aproveitar a estrutura dos laboratórios sem atrapalhar sua rotina de pesquisa. A expectativa é que o projeto chegue aos primeiros resultados no segundo semestre de 2019.

A Iniciativa Brasileira de Reprodutibilidade se enquadra em uma área conhecida como metaciência, pois seu objeto de estudo é a própria atividade científica. Para Amaral, tornar a ciência mais confiável deveria ser prioridade dos pesquisadores. Ele afirma que não conseguir reproduzir um experimento pode ter significados diversos.

“Muita gente pensa em fraude, mas é mais provável que haja vieses ao realizar ou analisar os experimentos, erros metodológicos ou falhas na descrição do procedimento”, afirma Amaral. “Pode ser também que aquele ensaio só funcione em condições muito específicas ao laboratório de origem. E muita coisa não será replicável por conta do acaso – com os baixos níveis de rigor normalmente usados para dizer que um resultado é positivo na pesquisa biomédica, muita coisa publicada acaba sendo só ruído.”